Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

O nosso blog abre um canal onde o internauta poderá participar sugerindo publicação. Enviando fotos

Traduza para seu idioma

Visitas internacionais

Free counters!

Seguidores

Hectambe da Vitória O Destaque em vermelho faz parte de minha genealogia

                             NARRATIVA COMPLETA DA HECATOMBE DA VITÓRIA DE SANTO ANTÃO


Feita por Álvaro da Costa Lins


Encontrava-se o Estado de Pernambuco em franca efervescência política, motivada pelo falecimento do Visconde de Suassuna, Senador do Império, cuja vaga tinha de ser preenchida.

Com a queda do Partido Conservador, subiu o partido Liberal, que, como casa onde todos mandam e ninguém obedece, pela ausência de um chefe que tal nome merecesse, cindiu-se, sendo dest’arte jogado por si mesmo a uma situação de quase anarquia.

A desinteligência deu origem a duas alas: uma denominada de “Democratas” e outra de “Leões”; esta última, devido ao nome de seu dirigente, Dr. José Felipe de Souza Leão, Presidente do Tribunal de Relações do Estado, e chefe político deste Município, o qual tinha como preposto nesta cidade o seu amigo e filho adotivo, a quem educara: Dr. Nicolau Rodrigues da Cunha Lima, Juiz Municipal do termo.

Exacerbavam-se os ânimos cada dia mais, sendo a cidade, na sua quase totalidade, de adeptos da família Souza Leão, enquanto os “senhores de engenho” pertenciam, na sua maioria aos democratas, também chamados “cachorros” e aos “conservadores”, tendo como chefe o bravo Dr. Ambrosio Machado da Cunha Cavalcanti, abastado agricultor deste município.

Nas eleições para Juízes de Paz e Vereadores, os liberais “cachorros” se aliaram aos conservadores, dando em resultado a derrota dos Leões. Daí em diante, a campanha para Senador não teve tréguas, notando-se verdadeira preparação bélica do lado dos Souza Leão. Casas foram transformadas em oficinas, em que se trabalhava noite e dia na preparação de pólvora e cartuxos. Facões e punhais eram vazados e afiados às escâncaras.

Na Câmara Provincial discursavam os deputados sobre o estado em que se encontrava o governo desta cidade, e clamavam, em vão, por providências do governo que, criminosamente “neutro”, tapava os ouvidos aos discursos inflamados dos representantes do povo. Por seu lado, os democratas e conservadores trabalhavam em favor dos seus partidos.

Com Ambrosio Machado se encontravam o seu cunhado, Barão da Escada, o Major Manoel de Sá Cavalcanti Lins, Alexandre José Maria de Holanda Cavalcanti, vereadores Tenente Caetano Bento de Figueiredo, Antônio Ferreira de Albuquerque, José, João e Pedro Leite, Tenente Félix de Luna, Geminiano Campelo Cavalcante de Albuquerque, José Maria de Oliveira, além de muitos outros.

O governo, em vez de procurar um meio de evitar a luta, chegava achas à fogueira, mandando tropas para a cidade. Nas proximidades da eleição, a Força Pública reunida a capangas e assalariados orçava em cerca de trezentos homens. As hostilidades cresciam tendo como alvo principal, na cidade, o Dr. Nicolau, eventualmente chefe ostensivo dos “Leões”.

Iam as coisas nesse pé, quando certa manhã, ao abrir a porta de sua casa, deparou-se o Dr. Nicolau com a figura de um “Judas” segurando um papel em que se liam dizeres ofensivos à sua pessoa, inclusive o de que “negro nascera para carro e chicote”. Sendo homem de cor, muito se agravou com o insulto dos seus adversários, e foi de certo esse procedimento que concorreu mais poderosamente para a vingança.

O Dr. Nicolau, de conduta irrepreensível, bom chefe de família, estudioso e ilustrado, dirigia um curso de línguas inglesa e francesa; começou a livrar-se dos compromissos até então tomados, acabando o curso e entregando aos pais, um afilhado que tinha em sua casa, a quem ministrava o ensino.

Procurou as pessoas com quem mantinha negócios e pagou a quem devia, liquidando também contas com seus devedores. No fim, apurou um saldo líquido de trinta contos de réis. No mesmo dia do aparecimento do “Judas”, ou no dia seguinte, o Dr. Nicolau, conduziu a esposa D. Branca Ponce de Leon da Cunha Lima, para o Engenho Pombal, deste município, de propriedade de seus sogros, a cujos cuidados deixou-a, regressando só, à cidade. O pretexto da sua vinda não estava longe: as eleições para a vaga de Senador do Império.

Ao chegar em casa, dirigiu-se imediatamente à residência do preto Elesbão Marçal da Rocha, zelador da Igreja do Rosário. Não o encontrando, perguntou ainda a algumas pessoas se sabiam do paradeiro do mesmo. Ao ter conhecimento de que estava sendo procurado, e informado de que a chave da Igreja iria ser tomada pelo Juiz, o preto escondeu-se, aparecendo o seu cadáver, dias depois, entre um matagal então existente por trás da rua da Salgadeira, hoje Melo Verçosa. Há quem diga que o pobre e honrado preto fora emasculado.

Em face da ausência de Elesbão, o Dr. Nicolau mandou arrombar a Igreja, no oitão, lado norte, transformando-a em reduto de homens armados. Destes, cinqüenta por cento eram soldados. Foram abertas seteiras no mesmo lado, e o coro ficou regorgitando de gente armada. Os homens que ficaram na nave tiveram por comandante o Capitão Antonio de Paula Cavalcanti de Almeida, veterano da guerra do Paraguai; e os que não encontravam mais lugar, foram distribuídos pelas moitas de carrapateiras e de jurubebas, no Pátio da Matriz.

Pelas janelas da parte posterior, os que estavam no coro observavam as passagens e entradas principais, especialmente o caminho natural dos engenhos Campo Alegre e São Francisco, do Major Lins. Mandou o Dr. Nicolau suprir o pessoal da Igreja, de alimento suficiente, tomando assim, fria e metodicamente, todas as disposições para o embate que se avizinhava e fora por ele concebido.

Às 15 horas pouco mais ou menos, do dia 27, véspera da eleição, apareceram no alto da Ladeira de Pedras, os primeiros homens dos “cachorros”, capitaneados pelo Dr. Ambrósio Machado, Major Lins, Cel. Minô, os irmãos João, Pedro e José Leite, Joca Lins, Américo Lins, o Barão da Escada ( este, ao que consta, em caráter conciliatório ) e muitos outros. Eram eleitores que vinham organizar a mesa das eleições do dia seguinte.

Na cidade, constituindo como que o seu estado maior, encontrava-se ao lado do Dr. Nicolau, muitos amigos, entre os quais destacavam-se o Tenente José Francisco Pedroso de Carvalho, do engenho Gameleira; Tenente Cristóvão Álvares dos Prazeres, do engenho Canha; o capitão Torreão, comandante do destacamento local; Miguel Álvares dos Prazeres; o artista imaginário Martiniano Inocêncio de Pinho Leite; o pedreiro Antônio Muniz de Paula, vulgo “Pardo Velho”, José Olavo Wanderley; Antônio Cavalcanti de Almeida, conhecido por “Tiburtino”, Manoel Lídio Álvares dos Prazeres, e Tte. Cel. Francisco José Álvares, Idelfonso Álvares Prazeres e tantos outros.

Todos os planos haviam sido estudados.

Cientes os “Leões” de que os “Cachorros” haviam aparecido no alto da “Ladeira de Pedras”, ficaram em anciosa espectativa.

Ao chegarem aqueles na Rua de Jenipapo, pararam e os chefes entraram na casa do Capitão Antônio Rodrigues da Costa, comerciante português cognominado por “Barrigudinho”, e começaram a conferenciar.

O Dr. Ambrósio, que assistia à conversação, de vez enquanto recebia bilhetes e recados de amigos, advertindo-o do perigo existente, particularmente em relação à sua pessoa, se ele penetrasse na cidade; e quando os “Leões” soltavam um foguete , o Dr. Ambrósio deixava a sala e respondia com uma bomba real, que ele mesmo do meio da rua acendia e mandava para o espaço.

Prolongando-se a entrefala dos chefes com “Barrigudinho”, o Dr. Ambrósio impacientou-se e declarou em voz alta que quem quisesse podia ficar palestrando, ele porém não estava disposto a perder tempo com uma conversa que não tinha fim, e saiu.

Quando o Barão, o Cel. Minô, Major Lins e os demais, chegaram à porta, já não encontraram o Dr. Ambrósio que saíra apressado, tomando, em local próximo, a frente da Charanga “Quebra-quilos”, previamente construída, para percorrer várias ruas. Ao chegar com a música no Pátio da Matriz, defrontou-se com o seu irmão e outros, inclusive o Barão da Escada; caminhando ligeiro, colocou-se ao lado do seu cunhado, no Beco do Rosário, dirigindo-se todos à Igreja.

Ao chegarem à esquina, o Barão fez gesto de dirigir-se ao Dr. Nicolau, que estava na calçada do templo, armado com uma espingarda de dois canos, mas não chegou a apear-se, atingido que foi, mortalmente, por uma bala, caindo agonizante.

O Dr. Ambrósio subiu na calçada e foi atingido pelo projétil de uma arma deflagrada por um cabo de polícia, de nome Amaro, que estava entrincheirado na torre direita. Esse tiro foi disparado de pontaria na cabeça do Dr. Ambrósio. Este ignorava o que significava a palavra medo, pois nascera para as batalhas cívicas. Não sabia recuar nem mentir ao seu passado pleno de rudes campanhas. Diante daquela cena não podia parar, tinha que prosseguir na pugna até o fim.

Assim, deixou o cunhado morrendo e teve de empregar a força física para dominar os amigos e abrir caminho. A despeito do ferimento, banhado em sangue, o branco lutador encaminhou-se para uma das portas de frente da Igreja, que foi por alguém aberta. Sua recepção foi uma saraivada de balas.

A esse tempo surgiram na esquina, em auxílio do Dr. Ambrósio, o Major Lins, seus irmãos, Leite e outros. Na mesma ocasião desponta no “Beco do Maribondo” Pedro Lins, que vinha de Cacimbas, seguido do seu pessoal e que estava de relações de amizade um tanto estremecidas com o Major Lins, por questões políticas.

Sabendo, porém, do que se tratava, ele, que vinha votar pacificamente nos Leões, vendo o perigo de vida em que se encontrava o seu irmão Major Lins, sentiu a voz do sangue; tomou posição e avançou para a Igreja, tendo de combater em todo o trajeto com os homens que se encontravam escondidos nos matos e que o Capitão José Pedroso e Tenente Cristóvão Álvares, a cavalo, dirigiam. Conseguindo vencer as hostilidades, ganhou a calçada da Igreja juntando-se aos “cachorros”.

O Dr. Ambrósio entrou na Igreja defrontando-se com homens metamorfoseados em feras, sob o comando do Capitão Tiburtino. Infelizmente, poucos passos deu porque mão ignorada cravou-lhe um punhal nas costas. Um pardo, conhecido por “José Tôta”, correndo pela porta de entrada aproximou-se do Dr. Ambrósio, retirando o punhal. O ferido foi amparado por amigos e deixou a Igreja deitando sangue pela boca, sendo conduzido para casa do Dr. Leandro Francisco Borges, onde foi medicado.

Pedro Lins, logo que entrou no templo, foi atacado à espada pelo Capitão Tiburtino e recebeu um tiro na cabeça, partido do coro. Ao ver-se ensangüentado, sacou do punhal e enfrentou o oficial reformado, que, ileso e com uma arma de lâmina longa, facilmente o alcançou. Atingido por um golpe no coração, caiu de joelho diante do altar-mor, tendo poucos momentos de vida. Antes de entrar no templo, Pedro Lins, católico que era, tirou o chapéu e persignou-se. Ao sair de casa, mandara acender velas no santuário, em companhia de sua esposa e de outras pessoas, de quem se despediu. Parecia prever o seu fim terreno.

Mortos o Barão e Pedro Lins, e ferido gravemente o Dr. Ambrósio, os eleitores se atracaram num corpo-a-corpo terrível.

A luta generalizou-se. Os combatentes se matavam, na escada, no coro, na parte térrea e na calçada da Igreja. Os “Leões” e os “Cachorros” confirmavam os seus apelidos, desprezando a vida, brincando com a morte. Nunca se tinha visto semelhante destemor. A emboscada preparada pelos Leões, obtivera seu efeito.

Diante daquele tumultuar satânico em que o movimento agressivo, de mistura com o patinar dos cavalos, os gritos, lamentos, choros, reflexos de armas brancas, “vivas” e “morras” uns caindo mortos, outros cambaleando feridos. José Leite, desassombrado, a cavalo, cercado por uma tropa de Leões, lutava como um verdadeiro herói, quando foi atingido por uma bala que alcançou os rins e saiu pela clavícola, caindo mortos ele e seu animal, na estrada da rua do Meio, hoje Rua Imperial. Um rapaz de nome João de Moura, sobrinho de José Leite e que se encontrava ao seu lado, recebeu um tiro de natureza grave e, todo ensangüentado, saiu descompassadamente, segurando-se às paredes das casas que vão da esquina daquela rua até a que tem hoje o nome de Fernandes Vieira. Sentido-se enfraquecido pela perda de sangue, sentou-se na calçada tombando para a frente e com as mãos entre os joelhos, segurando uma garrucha já armada. Um dos Leões aproximou-se dele, e levantando-lhe o rosto para reconhecê-lo, teve como resposta, o disparo da arma, que o atingiu no tórax.

O entrechoque estava no auge e de repente parou como se uma força misteriosa tivesse imobilizado os contendores. É que chegara uma notícia inesperada: o grosso das forças do Major Lins, dizem que mais ou menos 1500 homens armados até os dentes, se avizinhava da Igreja em socorro dos amigos.

O Dr. Nicolau, acompanhado de um soldado, deixou o local dos acontecimentos, escalou um muro atrás da Igreja e refugiou-se com o militar num cubículo no quintal da casa do marceneiro Belarmino conhecido por “Belos Olhos”, que viu Nicolau, de quem era inimigo.

Logo após a chegada do Juiz, os irmãos Pedro e João Leite, saltaram o muro em sua perseguição, e encontrando o dono da casa, perguntaram pelo fugitivo. “Belos Olhos”, num gesto que enobrece a sua memória, declarou-lhe que não vira no quintal pessoa alguma. Quando escureceu, o Dr. Nicolau e o soldado saíram do esconderijo, o militar tomou destino ignorado, o juiz trocou de nome, passando para a província das Minas Gerais, onde viveu disfarçado até a prescrição do crime. Com a chegada dos “cachorros”, os “Leões” foram deixando o teatro do drama sangrento que estava no seu epílogo, ficando aqueles, senhores da situação. Os Leões se eclipsaram. Estava terminada a refrega.

A cidade passou a noite às escuras, e o silêncio era interrompido apenas pelo rodar das carroças que passavam para o cemitério e que transportaram algumas dezenas de cadáveres, ou pelo estampido de uma arma disparada de longe em longe...

Na manhã de 28, Jaziam na calçada da Igreja, em decúbito dorsal quatorze cadáveres, apresentando, cada um deles, muitos ferimentos de arma de fogo e branca, sendo treze soldados e um civil. O cadáver do Barão foi transportado para o Recife em uma diligência ( naquela época ainda não havia trem ) por um rapaz de nome José, conhecido por “José Bolieiro”, o qual, por muitos anos era proprietário de um hotel na cidade de Arcoverde.

Dias depois, chegaram a esta cidade dois homens desconhecidos, em busca do Dr. Nicolau, não tendo notícias do mesmo. Dizem que traziam a incumbência de eliminá-lo. Muitos responsáveis pela hecatombe foram presos, recolhidos à Casa de Detenção e processados.

O Vice-Presidente da Província, a cuja tibieza se deve a eclosão do conflito, e parcialmente prestigiando cegamente os Souza Leão, deixou o cargo que foi assumido pelo Dr. Franklin de Menezes Dória, no mesmo dia em que chegou ao Recife, o cadáver do Barão da Escada ( 28 de junho ).

Ao tomar posse perante a Assembléia Provincial, viu o Dr. Dória o estado de exaltação de ânimos não só dos legisladores como do povo que enchia as galerias. Falou verberando o procedimento do Vice-Presidente em exercício, o Dr. José Maria Albuquerque Melo.

A exaltação popular não era menor na rua e o Dr. Souza Leão chegou a pedir garantias porque quase não pôde penetrar na Corte de Apelação impedida de funcionar devido à fúria da multidão que se comprimia nos arredores da mesma.

No Rio a indignação foi enorme e o Dr. José Mariano, representante de Pernambuco, fez um discurso na Assembléia Geral que foi como ferro em brasa, profligando os fatos ocorridos nesta cidade. Também atirava a responsabilidade dos mesmos aos políticos prestigiados pela situação passada, isto é, a uma fração do Partido Liberal que obedecia à orientação do Dr. Luiz Felipe de Souza Leão e os membros da família deste, grande e poderosa, por sinal.

Eis, em síntese, o que foi a chamada Hecatombe da Vitória, ocorrida em 27 de Junho de 1880, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que servia de Matriz da freguesia de Santo Antão da Vitória, pois a Matriz atual estava em construção.

0 comentários: