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Conheça a história do operário vaqueiro da Arena Pernambuco

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Fábio Jardelino e Thiago WagnerDo NE10

No lugar do chapéu de couro, o capacete. Ao invés do gibão, os equipamentos de proteção da construção civil. A vestimenta que José Francisco, 62 anos, utiliza para trabalhar como operador de águas na Arena Pernambuco, futuro estádio da Copa do Mundo de 2014, em construção na cidade de São Lourenço da Mata, Grande Recife, é muito diferente da que ele provavelmente gostaria de usar. Por trás da dedicação para tratar toda a água que entra na obra, existe um coração sertanejo. Natural de Vitória de Santo Antão, Zona da Mata do Estado, José já trabalhou como locutor em diversas vaquejadas no interior do Estado e já foi um típico vaqueiro - função que nunca esqueceu e que pretende voltar a fazer algum dia. "Sou um vaqueiro velho", afirma com orgulho.

O apego pelos costumes do interior é tão grande que mesmo morando na capital, José ainda prefere montar um cavalo a dirigir um carro. "Podem me dar o carro mais potente, porque eu ainda vou preferir um cavalo. Gosto muito de cavalos e de montar. Trabalhando aqui, eu pude comprar um carro e aprender a dirigir, mas nunca vou abrir mão do cavalo", declara. Foi durante uma dessas cavalgadas pelo interior, que surgiu o convite para ser locutor de vaquejada. "Eu estava no evento e o locutor da vaquejada havia faltado. Chegaram para mim e me convidaram. Eu fui e fiquei fazendo locução depois. Ainda trabalhei um tempo em rádio também", revela.

A cidade grande também não atrai o Seu José, ou Dedé da Vaquejada, como é chamado na arena e como ele mesmo afirma que é conhecido no mundo das vaquejadas. Já morou em São Paulo e não aprovou. Diz que sofreu preconceito por ser nordestino e decidiu voltar para casa. "Meu sonho é um dia voltar para onde nasci e terminar os meus dias por lá com um cavalo. Prefiro a vida sertaneja".


No entanto, a vida de "Dedé" nem sempre se resumiu ao trabalho no interior. Há quase 40 anos ele trabalha na construção civil. A função de operador de águas nem sempre foi a exercida. Ele mesmo afirma que já fez de tudo. "Saí de firma, entrei em outra. Já fiz vários trabalhos em diversas obras, mas aqui eu acho que me encontrei. Não sei o que vai acontecer depois de terminar o estádio. Vou tentar continuar na empresa, mas se não puder, eu procuro outro emprego com a mesma disposição de sempre. Enquanto Deus me proporcionar forças, eu vou continuar trabalhando". Essa devoção do sertanejo por Deus também é algo que chama a atenção. Apesar de não ser católico, como todo bom nordestino, Seu José admira Padre Cícero. "Ele foi uma grande lenda no Sertão. Deu muito ensinamento para o sertanejo. Foi um grande pregador da palavra", explica.



"Meu sonho é um dia voltar para onde nasci e terminar os meus dias por lá com um cavalo. Prefiro a vida sertaneja"

Além da paixão pelas vaquejadas, José também gosta de escrever versos nas horas vagas. Não é repentista ou improvisa, como ele bem salienta, ao contrário, sempre que tem uma ideia na cabeça, anota no caderno. "Na verdade eu sou um poeta. Preciso de tempo para escrever. Sentar e pensar sobre o poema", explica. A fama dos versos do operário é bem conhecida entre os companheiros de trabalho, na Arena Pernambuco. "Sempre me pedem nos intervalos para que eu solte algum verso. Como eu não sou bom de improvisar na hora, anoto tudo que escrevo e conto aqui para o pessoal", afirma.

Diversos são os assuntos abordados nos versos de José. Desde Luiz Gonzaga, por quem tem um respeito profundo, ao futebol. Alguns ficaram mais conhecidos durante a cerimônia de entrega de ingressos para a Copa do Mundo de 2014, que aconteceu na primeira semana de março (5). Nesse evento, todos os funcionários da arena ganharam um ticket válido para assistir ao primeiro jogo do Mundial. José Francisco foi um dos quatro escolhidos, através de sorteio, para representar os quase 4.500 operários. Ele recebeu o ingresso simbólico diretamente das mãos do secretário-geral da Fifa, o francês Jérôme Valcke e do ex-jogador Ronaldo. Procurado pela imprensa, depois do evento, José soltou o verso que ficou famoso, "Corra muito, jogue bola e faça gol com amor. Nunca pense em errar a barra quando for chutar em gol. Faça tudo como o técnico lhe ensinou."

Com o único bilhete na mão, a promessa agora é juntar um dinheiro extra para comprar os ingressos dos familiares. Todos querem assistir ao jogo. Ainda não se sabe quais times irão jogar, mas José diz que tanto faz. A real alegria será ver a arena, da qual participou da construção, enfim ser usada. "Vou levar meus filhos, esposa e netos. Vai ser muito gratificante vir aqui e ver que uma parte disso é minha também". O futebol, por sinal, é uma das paixões do velho vaqueiro, que se diz torcedor apaixonado pelo Sport Club do Recife. Quando mais novo, ele também era praticante das peladas do fim de semana, em Vitória de Santo Antão. "Fiz gols que nem eu mesmo acreditei", brinca.



O local onde José Francisco trabalha, a A Arena Pernambuco

Por falar em família, a de Seu José pode ser considerada uma das grandes. Ele tem seis filhos fruto de três casamentos e outros três filhos de consideração. Um deles trabalha como segurança da arena, enquanto que os outros, mais novos, sempre pedem para visitar o trabalho do pai. "Meus filhos pedem para tirar fotos e vir para cá. Eu explico que não pode, mas eles me perguntam em qual estágio estão as obras."

José já foi casado por três vezes e tem uma opinião segura quanto ao casamento, "Quando tá tudo errado, você tem que parar para começar de novo. Tem gente que veve (sic) com a esposa em casa e briga direto, batendo um no outro, discutindo, arengando. Isso tá tudo errado. Tem que parar pra começar de novo. Se não dá para viver junto, separa". E conclui explicando um pouco da própria experiência de vida. "Eu vivi 18 anos com minha ex-mulher e quando foi um dia ela cismou e não quis mais viver comigo. Dei a casa e disse que ia ajudá-la em que ela precisasse. Depois disso casei de novo e já vivo junto há 11 anos. E vivo muito bem."

Quando questionado sobre felicidade, o vaqueiro apenas responde "Hoje eu sou um homem realizado. Tenho minha casinha, meu carrinho e tirei agora minha habilitação". Ele ainda brinca com o fato dos dois divórcios que passou. "Eu já comecei do zero três vezes. E sempre consegui me reerguer". Uma outra alegria na vida do operário é a entrega da Arena Pernambuco. "Me sinto honrado em ter trabalhado aqui, em entregar ao meu povo, o povo pernambucano, uma belezura (sic) dessa", conta.

Além das poesias, um outro ponto característico de José Francisco é o seu orgulho de ser sertanejo, que ele faz questão de deixar claro. "Meu amigo, eu me enxergo como um vaqueiro velho. Tenho mil realizações, mas dentro de mim eu sou um vaqueiro velho. É isso que eu gosto de ser no fim das contas", conta emocionado.


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